Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
IV
O TRABALHO ARTESANAL DOS ECONOMISTAS E A ORGANIZAÇOM DOS REVOLUCIONÁRIOS
f) O trabalho à escala local e à escala de toda a Rússia
Se as objecçons contra o plano de organizaçom que expomos aqui, ao qual se censura a sua falta de democracia e o seu carácter conspirativo, carecem de qualquer fundamento, resta ainda umha questom que se levanta freqüentemente e que merece um exame pormenorizado. Trata-se da questom da correlaçom entre o trabalho local e o trabalho à escala de toda a Rússia. Exprime-se o receio: nom passará, ao ser criada umha organizaçom centralista, o centro de gravidade do primeiro trabalho para o segundo? nom prejudicará o movimento, nom enfraquecerá a solidez dos vínculos que nos unem à massa operária e, em geral, a estabilidade da agitaçom local? Responderemos que nestes últimos anos o nosso movimento se ressente precisamente do facto de os militantes locais estarem excessivamente absorvidos polo trabalho local; que por esta razom é sem qualquer dúvida necessário deslocar um pouco o centro de gravidade para o trabalho à escala de toda a Rússia; que esta deslocaçom nom enfraquecerá, mas polo contrário dará maior solidez aos nossos vínculos e maior estabilidade à nossa agitaçom local. Examinemos a questom do órgao central e dos órgaos locais, pedindo ao leitor que nom esqueça que o assunto da imprensa nom é para nós mais do que um exemplo ilustrativo do trabalho revolucionário em geral, infinitamente mais amplo e mais variado.
Durante o primeiro período do movimento de massas (1896-1898), os militantes locais procuram criar um órgao para toda a Rússia: o Rabótchaia Gazeta; no período seguinte (1898-1900), o movimento dá um gigantesco passo em frente, mas a atençom dos dirigentes é inteiramente absorvida polos órgaos locais. Se se contar todos estes órgaos locais, verificará-se 113 que se publicou, em números redondos, um número por mês. Nom será isto umha prova evidente do nosso trabalho artesanal? nom demonstrará isto de maneira evidente o atraso da nossa organizaçom revolucionária em relaçom com o crescimento espontáneo do movimento? Se a mesma quantidade de números de jornais tivesse sido publicada, nom por grupos locais dispersos mas por umha organizaçom única, nom só teríamos economizado umha quantidade enorme de forças, mas teríamos assegurado ao nosso trabalho infinitamente mais estabilidade e continuidade. Esta simples consideraçom é esquecida, com demasiada freqüência, tanto polos militantes práticos, que trabalham de um modo activo quase exclusivamente nos órgaos locais (infelizmente, na imensa maioria dos casos, a situaçom nom mudou até hoje), como polos publicistas, que mostram nesta questom um quixotismo espantoso. O militante prático dá-se geralmente por satisfeito com a consideraçom de que aos militantes locais «lhes é difícil» 114 ocuparem-se da criaçom de um jornal para toda a Rússia e de que é melhor ter jornais locais do que nom ter nengum. Isto, evidentemente, é perfeitamente correcto, e nengum militante prático reconhecerá mais do que nós a grande importáncia e a grande utilidade dos jornais locais em geral. Mas nom se trata disto, mas sim de saber se é possível libertarmo-nos deste fraccionamento e deste trabalho artesanal, que som tam nitidamente demonstrados nos trinta números de jornais locais publicados, em toda a Rússia durante dous anos e meio. Nom vos limitedes ao princípio indiscutível, mas demasiado abstracto, da utilidade dos jornais locais em geral; tende, além disso, a coragem de reconhecer francamente os seus aspectos negativos, revelados pola experiência de dous anos e meio. Esta experiência demonstra que nas condiçons em que nos encontramos os jornais locais som, na maioria dos casos, instáveis do ponto de vista dos princípios, carecem de importáncia política e som excessivamente dispendiosos quanto ao consumo de energias revolucionárias e totalmente insatisfatórios do ponto de vista técnico (nom falo, é claro, da técnica tipográfica, mas da freqüência e da regularidade da publicaçom). E todos os defeitos apontados nom som obra do acaso, mas conseqüência inevitável do fraccionamento que, por um lado, explica a predomináncia dos jornais locais no período que examinamos e, por outro, encontra um apoio nesta predomináncia. Umha organizaçom local, por si só, nom está realmente em condiçons de assegurar a estabilidade de princípios do seu jornal e de o colocar ao nível de um órgao político, nom está em condiçons de reunir e utilizar materiais suficientes para abordar toda a nossa vida política. E, quanto ao argumento a que habitualmente se recorre nos países livres para justificar a necessidade de numerosos jornais locais —serem baratos polo facto de serem feitos por operários locais, e a possibilidade de oferecer à populaçom umha informaçom melhor e mais rápida—, a experiência demonstrou que, no nosso país, este argumento se volta contra os jornais locais. Estes últimos custam demasiado caro no que se refere a energias revolucionárias, e aparecem com intervalos muito espaçados pola simples razom de que um jornal ilegal, por pequeno que seja, exige um enorme aparelho clandestino unicamente possível num grande centro fabril e impossível de montar numha oficina artesanal. Quando o aparelho clandestino é rudimentar, acontece muitas vezes (todo o militante prático conhece abundantes exemplos deste género) que a polícia aproveita o aparecimento e a divulgaçom de um ou dous números para fazer prisons em massa, deixando as cousas em tal estado que é necessário começar tudo de novo. Um bom aparelho clandestino exige umha boa preparaçom profissional dos revolucionários e a mais conseqüente divisom do trabalho, e estas duas condiçons som absolutamente irrealizáveis numha organizaçom local isolada, por mais forte que seja num dado momento. Nom falemos já dos interesses gerais de todo o nosso movimento (uma educaçom socialista e política dos operários baseada em princípios firmes); também os interesses especificamente locais som melhor servidos por órgaos nom locais. Só à primeira vista isto «pode parecer um paradoxo, mas, na realidade, a experiência dos dous anos e meio de que falamos demonstra-o de modo irrefutável. Todos concordarám que se todas as forças locais, que publicárom trinta números de jornais locais, tivessem trabalhado para um só jornal, teriam-se publicado, sem dificuldade, sessenta, se nom mesmo cem números, e, por conseguinte, teriam reflectido de forma mais completa as particularidades do movimento de carácter puramente local. É indubitável que nom será fácil conseguir esta coordenaçom, mas é preciso que, finalmente, reconheçamos a sua necessidade; que cada círculo local pense e trabalhe activamente nesse sentido sem esperar o empurrom de fora, sem se deixar seduzir pola acessibilidade e pola proximidade de um órgao local, proximidade que –segundo prova a nossa experiência revolucionária– é, em grande parte, ilusória.
E prestam um fraco serviço ao trabalho prático os publicistas que, considerando-se especialmente próximos dos militantes práticos, nom se dam conta deste carácter ilusório e escapam com um raciocínio tam extraordinariamente fácil como vazio: fam falta jornais locais, fam falta jornais regionais, fam falta jornais para toda a Rússia. Naturalmente, falando em termos gerais, tudo isto fai falta, mas também fai falta, quando se aborda um problema concreto de organizaçom, pensar nas condiçons de ambiente e de tempo. Nom estamos nós, de facto, perante um caso de quixotismo, quando o Svoboda (n.º 1, p. 68), «detendo-se» especialmente «no problema do jornal» escreve: «Pensamos que em todo o lugar com umha concentraçom um tanto significativa de operários deve haver um jornal operário. Nom trazido de fora, mas precisamente o seu próprio jornal»? Se este publicista nom quer pensar no sentido das suas palavras, polo menos reflecte tu por ele, leitor: quantas dezenas, se nom centenas de «lugares com umha concentraçom um tanto significativa de operários» existem na Rússia e que perpetuaçom do nosso trabalho artesanal resultaria se cada organizaçom local se pugesse, realmente, a publicar o seu próprio jornal! Como este fraccionamento facilitaria a tarefa dos gendarmes: apanhar –e além disso sem o menor esforço «um tanto significativo» –os militantes locais desde o próprio início da sua actividade, antes de terem podido transformar-se em verdadeiros revolucionários! Num jornal para toda a Rússia –continua o autor– nom interessariam muito as narrativas dos atropelos cometidos polos fabricantes «e dos pequenos pormenores da vida fabril em diferentes cidades que nom as do leitor», mas «o habitante de Oriol nom se aborrecerá ao ler o que se passa em Oriol. Conhece sempre aqueles com que se «metêrom», a quem «se deu o que merece« e pom a sua alma no que lê» (p. 69). Sim, sim o habitante de Oriol pom a sua alma, mas o nosso publicista «pom» também demasiada imaginaçom. No que devia pensar é se é oportuno defender desta maneira tal mesquinharia de esforços. Ninguém mais do que nós reconhece a necessidade e a importáncia das denúncias dos abusos que se cometem nas fábricas, mas é preciso recordar que já chegamos a um momento em que os habitantes de Petersburgo se aborrecem com as cartas petersburguesas do jornal petersburguês Rabótchaia Misl. Para as denúncias dos abusos que se cometem nas fábricas locais sempre tivemos, e devemos continuar a ter sempre, folhas volantes, mas no que respeita ao jornal devemos elevá-lo e nom rebaixá-lo ao nível das folhas de fábrica. Para um «jornal» necessitamos de denúncias nom tanto dos «pequenos factos», mas dos grandes defeitos típicos da vida fabril, denúncias que tenham como base exemplos de particular relevo e que podam, por isso, interessar a todos os operários e a todos os dirigentes do movimento, que podam enriquecer efectivamente os seus conhecimentos, alargar o seu horizonte, dar início ao despertar de umha nova regiom, umha nova camada profissional de operários.
«Além disso, num jornal local é possível agarrar imediatamente ainda quentes os abusos da administraçom da fábrica ou de outras autoridades. Polo contrário, enquanto a notícia chega ao jornal geral afastado, no ponto de origem já se terám esquecido do acontecimento: «De quando é isto? Quem é que se lembra!» (Ibid.). Exactamente, quem se lembra! Os trinta números publicados em dous anos e meio correspondem, segundo vimos na mesma fonte, a seis cidades. Isto a dá a cada cidade em média um número de jornal em cada meio ano! Supondo mesmo que o nosso frívolo publicista triplica, na sua hipótese, o rendimento do trabalho local (o que seria, sem dúvida, inexacto em relaçom com umha cidade média, porque no quadro do trabalho artesanal é impossível aumentar consideravelmente o rendimento), nom conseguiríamos, contudo, mais do que um número em cada dous meses, quer dizer, umha situaçom nada parecida com «agarrar imediatamente, ainda quentes, as notícias». Mas bastaria que dez organizaçons locais se unissem e encarregassem os seus delegados da funçom activa de fazer um jornal comum, para se tornar possível «recolher» por toda a Rússia nom os pequenos factos, mas abusos efectivamente notáveis e típicos, e isto cada quinze dias. Nom pode duvidar disto ninguém que conheça a situaçom em que se encontram as nossas organizaçons. E quanto a surpreeender o inimigo em flagrante delito, se se toma isto a sério e nom como umha frase bonita, um jornal clandestino nom pode, em geral, nem sequer pensar nisso: isto só é acessível a umha folha volante, porque o prazo máximo para surpreender assim o inimigo nom passa, na maioria dos casos, de um ou dous dias (considerade, por exemplo, o caso de umha vulgar greve curta, de um choque numha fábrica ou de umha manifestaçom).
«O operário nom vive só na fábrica, vive também na cidade», prossegue o nosso autor, passando do particular ao geral, com umha conseqüência tam rigorosa que honraria o próprio Borís Kritchévski. E assinala os problemas das dumas urbanas, dos hospitais urbanos, das escolas urbanas, exigindo que o jornal operário nom passe em silêncio os assuntos da cidade em geral. A exigência é por si magnífica, mas ilustra com particular evidência o oco carácter abstracto a que, com demasiada freqüência, se limita o palavreado sobre os jornais locais. Em primeiro lugar, se em «todo o lugar com umha concentraçom um tanto significativa de operários» se publicassem, de facto, jornais com umha secçom municipal tam pormenorizada como quer o Svoboda, degeneraria-se inevitavelmente, dadas as nossas condiçons russas, em verdadeiras mesquinharias, enfraqueceria a consciência da importáncia de um assalto revolucionário geral de toda a Rússia contra a autocracia tsarista e reforçariam-se os rebentos muito resistentes –mais dissimulados ou reprimidos do que arrancados– de umha tendência celebrizada pola famosa frase sobre os revolucionários que falam demasiado do parlamento que nom existe e muito pouco das dumas urbanas que existem. E dixemos «inevitavelmente» sublinhando assim que nom é isto, mas o contrário, o que o Svoboda quer. Mas as boas intençons nom chegam. Para que o trabalho de esclarecimento dos assuntos urbanos fique organizado de acordo com a orientaçom adequada a todo o nosso trabalho é preciso, para começar, que esta orientaçom esteja totalmente elaborada, firmemente definida, e nom só por raciocínios, mas também por um sem-número de exemplos, para poder adquirir a solidez da tradiçom. Estamos muito longe de ter isto, e é o que precisamente nos fai falta para começar, antes de se poder pensar numha abundante imprensa local e falar dela.
Em segundo lugar, para escrever com verdadeiro acerto, de um modo interessante, sobre os assuntos da cidade, é preciso conhecê-los bem, e nom apenas através dos livros. Mas, em toda a Rússia, quase nom há em absoluto social-democratas que tenham esse conhecimento. Para escrever num jornal (e nom em brochuras populares) sobre assuntos da cidade ou de Estado é necessário dispor de umha documentaçom actualizada, variada, recolhida e elaborada por umha pessoa entendida. Ora, para recolher e elaborar tal documentaçom nom basta a «democracia primitiva» de um círculo primitivo, no qual todos fam de tudo e se divertem brincando aos referendos. Para isso é preciso um estado-maior de especialistas escritores, de especialistas correspondentes, um exército de repórteres social-democratas, que estabeleçam relaçons em toda a parte, sabendo penetrar em todos os «segredos de estado» (dos quais o funcionário russo tanto se gaba e sobre os quais dá à língua tam facilmente) sabendo deslizar por todos os «bastidores», um exército de homens obrigados «polas suas funçons» a ser omnipresentes e omniscientes. E nós, partido de luita contra toda a opressom económica, política, social e nacional, podemos e devemos encontrar, reunir, formar, mobilizar e pôr em marcha este exército de homens omniscientes. Mas isto inda está por fazer! Ora bem, na imensa maioria das localidades, nós nem sequer demos ainda um só passo nesta direcçom, mas até, freqüentemente, nem mesmo existe a consciência da necessidade de o fazer. Procurade na nossa imprensa social-democrata artigos vivos e interessantes, crónicas e denúncias sobre os nossos assuntos e assuntozinhos diplomáticos, militares, eclesiásticos, municipais, financeiros, etc. etc.: encontraredes muito pouco ou quase nada 115. É por isso que «fico terrivelmente furioso quando alguém me vem dizer umha série de cousas muito boas e muito bonitas» sobre a necessidade de jornais «em todos os lugares com umha concentraçom um tanto significativa de operários», que denunciem as arbitrariedades tanto nas fábricas como na administraçom municipal e no Estado!
A predomináncia da imprensa local sobre a central é umha manifestaçom de penúria ou de luxo. De penúria, quando o movimento nom tem ainda forças para um trabalho em grande escala, quando vegeta ainda dentro do trabalho artesanal e quase se afoga nos «pequenos factos da vida fabril». De luxo, quando o movimento já dominou completamente a tarefa das denúncias em todos os sentidos e da agitaçom em todos os sentidos, de modo que, além do órgao central, se tornam necessários numerosos órgaos locais. Que cada um decida, por si próprio, o que é que entre nós prova a predomináncia actual dos jornais locais. Quanto a mim, para nom dar lugar a confusons, limitarei-me a formular de maneira precisa a minha conclusom. Até agora, a maioria das nossas organizaçons locais pensa quase exclusivamente em órgaos locais e trabalha de modo activo quase exclusivamente para eles. Isto nom é normal. Tem que suceder o contrário: é preciso que a maioria das organizaçons locais pense, principalmente, na criaçom de um órgao para toda a Rússia e trabalhe principalmente para ele. Enquanto assim nom for, nom poderemos publicar nem um só jornal que seja polo menos capaz de proporcionar efectivamente ao movimento umha agitaçom em todos os sentidos através da imprensa. E quando isto acontecer, estabelecerám-se por si próprias as relaçons normais entre o órgao central indispensável e os indispensáveis órgaos locais.
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À primeira vista, pode parecer que a conclusom de que é preciso deslocar o centro de gravidade do trabalho do âmbito local para o âmbito de toda a Rússia é inaplicável ao terreno da luita especificamente económica: o inimigo directo dos operários é representado neste caso por patrons isolados, ou grupos de patrons que nom estám ligados entre si por umha organizaçom que se assemelhe, mesmo de longe, a umha organizaçom puramente militar, rigorosamente centralista, dirigida até aos mínimos pormenores por umha vontade única, como é a organizaçom do governo russo, nosso inimigo directo na luita política.
Mas nom é assim. A luita económica –já o dixemos inúmeras vezes– é umha luita sindical, e por isso exige o agrupamento dos operários por profissons, e nom só polo lugar de trabalho. E esta uniom sindical é tanto mais urgentemente necessária quanto maior for a rapidez com que avança o agrupamento dos nossos patrons em toda a espécie de sociedades e sindicatos patronais. A nossa fragmentaçom e o nosso trabalho artesanal entravam directamente este agrupamento, que exige para toda a Rússia umha organizaçom única de revolucionários, capaz de ter a seu cargo a direcçom dos sindicatos operários extensivos a todo o país. Já falamos atrás do tipo de organizaçom que seria de desejar para este fim, e acrescentaremos agora algumhas palavras apenas em relaçom à questom da nossa imprensa.
Nom creio que alguém duvide que todo o jornal social-democrata deve ter umha secçom dedicada à luita sindical (económica). Mas o crescimento do movimento sindical obriga-nos a pensar também numha imprensa sindical. Parece-nos, no entanto, que na Rússia, salvo raras excepçons, nom se pode ainda falar em jornais sindicais; som um luxo e a nós falta-nos, com freqüência, o pam de cada dia. A forma adequada às condiçons do trabalho clandestino, e já agora imprescindível, de imprensa sindical deveriam ser entre nós as brochuras sindicais. Nelas deveriam ser recolhidos e agrupados sistematicamente materiais legais 116 e ilegais sobre a questom das condiçons de trabalho em cada profissom, sobre as diferenças que a esse respeito existem entre os diversos pontos da Rússia, sobre as principais reivindicaçons dos operários de umha dada profissom, sobre as deficiências da legislaçom que a ela se refere, sobre os casos mais relevantes da luita económica dos operários dessa profissom, sobre os começos, a situaçom actual e as necessidades da sua organizaçom sindical, etc. Em primeiro lugar, estas brochuras libertariam a nossa imprensa social-democrata de umha imensa quantidade de pormenores sindicais que só interessam especialmente aos operários de umha dada profissom. Em segundo lugar, fixariam os resultados da nossa experiência na luita sindical, conservariam os materiais recolhidos que hoje se perdem literalmente na imensa quantidade de folhas e de crónicas soltas e sintetizariam esses materiais. Em terceiro lugar, poderiam servir de umha espécie de guia para os agitadores, umha vez que as condiçons de trabalho variam com relativa lentidom, as reivindicaçons fundamentais dos operários de umha dada profissom som extraordinariamente estáveis (comparade as reivindicaçons dos teceláns da regiom de Moscovo, em 1885 117, com as dos teceláns da regiom de Petersburgo, em 1896) e um resumo destas reivindicaçons e necessidades poderia servir, durante anos inteiros, de excelente manual para a agitaçom económica em localidades atrasadas ou entre camadas atrasadas de operários; exemplos de greves vitoriosas numha regiom, dados sobre um nível de vida mais elevado, sobre melhores condiçons de trabalho numha localidade, incitariam também os operários doutras localidades a novas e novas lutas. Em quarto lugar, tomando a iniciativa de sintetizar a luita sindical e reforçando assim os vínculos do movimento sindical russo com o socialismo, a social-democracia preocuparia-se, ao mesmo tempo, com que o nosso trabalho trade-unionista ocupasse um lugar nem demasiado reduzido nem demasiado grande no conjunto do nosso trabalho social-democrata. É muito difícil, por vezes quase impossível, umha organizaçom local, isolada das organizaçons das outras cidades, manter neste aspecto umha justa proporçom (e o exemplo do Rabótchaia Misl mostra a que monstruoso exagero de carácter trade-unionista se pode chegar em tal caso). Mas umha organizaçom de revolucionários para toda a Rússia, que se mantenha firmemente no ponto de vista marxista, que dirija toda a luita política e disponha de um estado-maior de agitadores profissionais, nunca terá dificuldades em determinar acertadamente essa proporçom.
[113] Ver o Relatório ao Congresso de Paris (Trata-se da brochura Relatório sobre o Movimento Social-Democrata Russo ao Congresso Socialista Internacional de Paris em 1900, editado pola «Uniom dos Social-democratas Russos”, Genebra, 1901. O relatório foi escrito pola redacçom da Rabótcheie Dielo, por incumbência da «Uniom». N. Ed.), (p.14): «Desde essa época (1897) até à Primavera de 1900 fôrom publicados em diversos lugares trinta números de jornais diversos ... Em média publicou-se mais de um número por mês.»
[114] Esta dificuldade é só aparente. Na realidade nom há círculo local que nom poda executar activamente esta ou aquela funçom do trabalho à escala nacional. «Nom digas que nom podes, mas sim que nom queres.»
[115] Eis porque mesmo o exemplo de órgaos locais excepcionalmente bons confirma inteiramente o nosso ponto de vista. Por exemplo, o Iújni Rabótchi (em galego, O Operário do Sul: jornal social-democrata, editado clandestinamente polo grupo do mesmo nome, de Janeiro de 1900 a Abril de 1903; publicárom-se doze números. Manifestou-se contra o «economismo» e o «terrorismo» e defendeu a necessidade do desenvolvimento do movimento revolucionário de massas. Mas, em contrapartida ao plano do Iskra de criar na Rússia o partido marxista centralizado em torno de um jornal político de toda a Rússia, o grupo Iújni Rabótchi propujo o plano de restabelecimento do POSDR por meio da formaçom de associaçons social-democratas regionais; N. Ed.) é um excelente jornal, que nom pode ser acusado de instabilidade de princípios. Mas, como é rara a vez que sai e é alvo de freqüentes acçons policiais, nom conseguiu dar ao movimento local tudo o que pretendia. O mais premente para o partido no momento actual –colocar, em princípio, os problemas fundamentais do movimento e desenvolver umha agitaçom política em todos os sentidos– foi superior às forças de um órgao local. E o melhor que deu, como os artigos sobre o Congresso dos Industriais Mineiros, sobre o desemprego, etc., nom eram materiais de carácter estritamente local, mas necessários para toda a Rússia e nom só para o Sul. Em toda a nossa imprensa social-democrata nom temos tido artigos como estes.
[116] Os materiais legais tenhem, neste sentido, especial importáncia, e estamos especialmente atrasados no que se refere à sua recolha e utilizaçom sistemática. Nom é exagerado dizer que se pode mais ou menos fazer umha brochura sindical só com materiais legais, enquanto é impossível fazê-la só com materiais ilegais. Recolhendo entre os operários materiais ilegais sobre problemas como os que tenhem sido tratados polo Rab. Misl, desperdiçamos inutilmente umha quantidade enorme de forças de um revolucionário (que poderia ser facilmente substituído neste trabalho por um militante legal), e apesar de tudo nom obtemos nunca bons materiais, porque os operários, que geralmente só conhecem umha única secçom de umha grande fábrica e quase sempre só sabem os resultados económicos, mas nom as condiçons e normas gerais do seu trabalho, nom podem adquirir os conhecimentos que geralmente possuem os empregados da fábrica, inspectores, médicos, etc., e que em enorme quantidade estám dispersos em artigos de jornais e publicaçons especiais de carácter industrial, sanitário, dos zemstvos, etc.
Recordo, como se fosse hoje, a minha «primeira experiência», que nom me deixou vontade de a repetir. Durante muitas semanas, entretivem-me a interrogar «apaixonadamente» um operário que vinha à minha casa sobre todos os pormenores da vida na enorme fábrica em que ele trabalhava. A verdade é que, embora com enormes dificuldades, conseguim, mais ou menos, compor a descriçom (de umha só fábrica!), mas acontecia, por vezes, que o operário, limpando o suor, me dizia com um sorriso no fim do nosso trabalho: «É para mim mais fácil trabalhar horas extraordinárias do que responder às suas perguntas!»
Quanto mais energicamente desenvolvermos a luita revolucionária, tanto mais o governo se verá obrigado a legalizar parte do trabalho «sindical», tirando-nos assim de cima parte da carga que sobre nós pesa.
[117] O movimento grevista de 1885 atingiu muitas empresas da indústria têxtil das províncias de Vladímir, de Moscovo, de Tver e outras do centro industrial da Rússia. A mais famosa foi a greve dos operários da Nikólskaia Manufaktura, de Savva Morózov, realizada em Orékhovo-Zúievo em Janeiro de 1885. As reivindicaçons principais eram: diminuir as multas, regulamentar as condiçons de contrataçom do trabalho assalariado, etc. A greve na fábrica de Morózov, em que participárom cerca de 8000 operários, foi reprimida pola tropa. Trinta e três grevistas fôrom entregues aos tribunais e mais de 600 operários fôrom desterrados. Sob a influência do movimento grevista de 1885-1886, o governo tsarista viu-se obrigado a promulgar a chamada «lei das multas». (N. Ed.)